Depoimento de Herminio Bello de Carvalho
Pre-Prefácio
Estamos no finalzinho da década de 50, quando meu "Já vi tudo" na Beco do Rio
era quase uma extensão da casa de Ismael. Prá quem não sabe, um "Já vi tudo" é
menos, bem menos, do que o popular conjugado, que costuma ser um sala-e-quarto
indivisível, banheiro mínimo e um metro quadrado a que chamavam de kitchnette.
"Já vi tudo" é o arremedo, reduzido, disso tudo. Mal você adentrava no recinto
e dava dois passos, já estava à janela.
Por casa de Ismael, entenda-se um quarto bastante abagunçado num sobrado da
Av. Gomes Freire (RJ). Estou falando, é claro, de Ismael Silva " um dos três
maiores sambistas de todos os tempos", segundo Vinicius de Moraes. Vivíamos o
retorno de Ismael à vida artística, ele saindo de um período obscuro do qual se
evitava qualquer comentário. Mas era o autor do antológico "Se você jurar", seu
carro-chefe, parceiro de Noel Rosa em nove sambas, e protagonista de alguns
conflitos na jurisdição do Estácio e adjacências - sobretudo com Francisco
Alves, o "Rei da Voz". Águas passadas por vezes movem alguns moinhos. Num dia em
que as cervejas, que as tomava quentes, foram talvez além da conta, fizeram-no
confessar-me que o "Se você jurar" só a segunda parte era dele. Ouviria depois,
de Mário Reis, a acusação de que nem essa ele fizera: todo o samba seria de
Newton Bastos. Prefiro, confesso, a versão de Ismael. Tecnicamente, a segunda do
samba é tipicamente Ismael.
As mazelas físicas chegaram com o tempo, agravando a saúde do sambista: uma
úlcera varicose o obrigou a um tratamento doloroso. Inventei-lhe tarefas, como
terapia : escrever seus sambas num caderno espiral, onde eu ia datilografando no
alto das folhas os títulos de suas músicas, e ele ia manuscrevendo seus sambas -
inclusive os tais nove feitos com Noel. Uma boa pesquisa no Museu da Imagem e do
Som, a quem doei o livro depois da morte do sambista, há de revelar
preciosidades. Cheguei a gravar num acetato, em dupla com ele, o "A razão
dá-se a quem tem", dele e do sambista da Vila.
Durante alguns anos sustentei essa informação, a das nove composições, até
que o "Noel Rosa, uma biografia" do João Máximo e Carlos Didier, revelasse a,
digamos, pouca memória de Ismael, ampliando para dezoito sambas a produção da
dupla. Eu fora contagiado pela imprecisão, chamemo-la assim, de meu parceiro.
Sim, parceiro : fizemos um samba, apenas um.
Errei outras e muitas vezes ao tropeçar em informações que fazia questão de
registrar, mas sem qualquer metodologia. Lá estou eu na varanda da casa de
Donga, já na década de 60, documentando num gravador suas histórias com
Villa-Lobos, e, de lambujem, me deliciando com o celebrado autor do "Pelo
telefone" solando em seu violão "bolacha" alguns choros que, aliás,
continuam inéditos até a presente data. Alguns anos depois levaria um puxão de
orelhas de Mestre Jairo Severiano, por ter registrado num de meus livros uma
informação imprecisa que Donga me prestara. A correção eu a fiz num de meus
livros seguintes.
A incorreção seria menos grave e relevante do que uma outra, consagrada pela
maioria dos pesquisadores da nossa música popular : a de que o "Pelo telefone"
teria sido o primeiro samba gravado. Não foi, sabe-se. Foi a composição que
maior sucesso alcançou ao ser lançada em 1917, tendo estampada no rótulo aquele
gênero específico. Continuo, neurótico que sou, desconfiando que essa celeuma
acaba por desqualificar e reduzir a grandeza do Donga
instrumentista-compositor, que tinha uma visão político- social do choro
bastante avançada para a época. Donga, repito, era maior que o "Pelo telefone".
Resvalei algumas vezes nessa, digamos, imprecisão, como também nas datas de
nascimento de Pixinguinha e Clementina de Jesus, até que estudiosos as
aclarassem com documentação incontestável. Mãe Quelé mentira ao dar-me a data
de seu nascimento? Claro que não : eu é que me descuidei, como péssimo
discípulo de Jota Efegê, de ir às fontes onde a data precisa saltaria clara de
um registro batismal, em Valença. Errei também ao omitir a parceria
Pixinguinha-Gastão Vianna no hoje célebre "Benguelê". Consta da primeira edição
do "Rosa de Ouro", volume I : autor desconhecido. Meio encabulado, Pixinga me
trouxe a partitura manuscrita daquela obra, e o reparo foi feito nas edições
posteriores, com o mea culpa devido. Eu não conhecia a música, e Clementina,
definitivamente, desalinhava suas histórias me levando a outros erros
irreparáveis. Por exemplo : "Orgulho, hipocrisia" me foi apresentado por ela
com uma segunda parte que ela sempre improvisava, seguindo uma tradição dos
velhos sambistas. Resolvi "ajeitar"o samba, escrevi os versos de uma segunda
parte que achava mais coerente com a primeira escrita por Paulo da Portela, e
fiz o registro em disco - sem dar-me o crédito da parceria (coisa que aliás
fiz muito pela vida afora). Tempos depois descubro que o samba já fora gravado,
e com outro nome, por Mário Reis - que vergonha!
Uma pesquisa mais acurada irá revelar outros escorregões que minha absoluta
falta de vocação para a pesquisa fez perpetrar.
A qualidade da informação eu a persigo com uma obstinação quase cega, como
forma de auto-penitência por essas imprecisões (e muitas outras que delas não
me recordo aqui) registradas em meus livros, ainda que escudado por depoimentos
gravados ou colhidos na fonte. Como foi o caso de Turibio Santos, a quem pedi
anotar (e o fez com extrema competência) informações preciosas que Villa -Lobos
prestava numa série de depoimentos realizados no Instituto Benjamin Constant,
na década de 50. Ao último deles não pude comparecer, e, graças ao meu jovem
substituto, pude atender ao pedido de Mindinha de Villa-Lobos, complementando
um opúsculo (pequeno livro, livreto - explica o Aurélio), que reproduz a
palestra que, também a pedido da amiga, fiz sobre Villa em 1962 - e ilustrada
por quem? por Donga, Cristina Maristany, Jodacil Damaceno e Turibio Santos.
Mas nem sempre o registro gravado se fez possível : Mindinha, amiga querida,
desfiava histórias maravilhosas - algumas delas absolutamente coerentes com as
que me contariam Luiz Heitor Corrêa de Azevedo, Olga Praguer Coelho ou
Herivelto Martins, que conviveram com o Maestro - a quem fui visitar (anotando
tudo, claro) em 12 de setembro de 1957 em seu apartamentinho perto da ABI.
Registrei-as em livros ou artigos, e uma dessas histórias teve sua veracidade
posta em dúvida por um pesquisador : Dalva de Oliveira teria sido mesmo a
cantora preferida de Villa-Lobos? Era o depoimento de Mindinha ou a minha
credibilidade que se contestava? Ou de ambos? Seria tão simples a dedução, se
boa vontade houvesse. Dalva era tecnicamente uma cantora perfeita,
deslumbrante, e sua participação no "Trio de Ouro" chamara a atenção do Mestre,
ao ouvir o arranjo de "Canoeiro", de Caymmi. Nele, inclusive, havia um canon,
requinte bem raro de se encontrar na música popular daquela época. Também os
contracantos de Zé e Zilda no "Se eu pudesse" chamaram a atenção do Maestro,
que recomendara sua audição aos alunos de canto orfeônico, através da
Professora D. Augusta Lopes da Silveira.
Lembro que também gravada não foi uma palestra que fiz no Museu de Belas
Artes : faltou luz. Cartola, Zé Ketti, Nelson Cavaquinho e Ismael Silva
contaram histórias que se perderam de vez. Assim como a fita do primeiro
registro feito em minha casa por Clementina, e, do lado "B ", um depoimento
pessoal de Pixinguinha da maior relevância. A fita se enrodilhou no carretel,
se estropiando. Se guardada, possivelmente hoje, com essas tecnologias todas,
teria sido recuperada. Mas quem quiser ouvir Pixinga e Jacob acompanhando Dalva
e Ademilde num aniversário meu, estou às ordens. Mostra-se o pau e a cobra,
tudo no bom sentido, claro.
E quem me contou que o verso final ( "... e eu chegando ao fim") do
"Ninguém me ama" foi Dircinha Batista quem o fez, no Bar do Zica, na Praça
Mauá? Terá sido Fernando Lobo, Jorge Goulart? À luta, senhores pesquisadores. À
luta, também, para ajustar o foco sobre a criação do Museu da Imagem e do Som.
Ofereço subsídios à parte : o discurso de Carlos Lacerda, em 03 de setembro de
65, transcrito do Setor de Fitas de Áudio da Fundação MIS. A quem duvidar, que
ouça.
Se confesso esses escorregões, e as fontes que os provocaram, é para
desmentir o que soa como galhofa : a de que sou um pesquisador. Sou tão somente
um desengavetador informal de informações que as registrava sem a sábia
meticulosidade que, infelizmente, não herdei de meu querido Jota Efegê. Sem
metodologia alguma, desapetrechado para exercício tão sério, proíbo que me
pespeguem esse rótulo que me soa amaldiçoado quando o vejo lavrado nas
entrevistas que dou, ou simplesmente utilizado por quem não o é. Nenhum
arquivo ou coleção de discos confere status de pesquisador a ninguém.
Revirando meus guardados para este depoimento, encontro uma ata não
assinada, sobre um seminário que teria sido realizado sobre o "Rosa de Ouro". O
estilo parece meu, porém com a acuidade própria de Jacob do Bandolim. Não me
lembro da realização desse seminário, como Paulinho da Viola não se lembrava de
João da Gente, da Portela, ter participado de uma palestra sobre Clementina,
promovida pelo já citado Prof. Luiz Heitor na Escola Nacional de Música em
1966, reinaugurando um ciclo que havia sido encerrado, há bem mais de vinte
anos, por Mário de Andrade. A foto de João e Clementina ao nosso lado comprova
a presença daquele maravilhoso partideiro naquele ciclo. Mas... e o registro
gravado, prova mais ampla além do programa que foi impresso? Não o fizeram. O
roteiro da exposição que fiz tenho-o apenas rascunhado, porque o mediador fora
o próprio Luiz Heitor, musicólogo especialista em Villa e Mignone, discípulo e
amigo de Mário. Aproveito para dizer que a beleza da voz de João da Gente,
documentada no primeiro disco solo de Clementina e, depois, no primeiro Lp da
Velha Guarda da Portela, produzido por Paulinho da Viola, me faz presumir que
o cantador Chico Antonio, descoberto por Mário em sua segunda viagem
etnográfica, possivelmente deveria exibir a mesma qualidade vocal do partideiro
da Portela.
Feita essa pública penitência pelos meus erros, deixo expressa a vontade de
que toda essa montoeira de papéis, desordenamente arquivados em pastas e mais
pastas e álbuns, não se destrua quando eu ao pó regresse - e entendam pó no
sentido bíblico, que outros pós jamais ousei aspirar por absoluta
incompetência e inaptidão.
E como nas últimas semanas tenho freqüentado emergências hospitalares com
desagradável habitualidade e estou assumidamente com uma síndrome de pânico que
me faz toda manhã consultar os obituários para ver se neles consta meu
desaparecimento, achei por bem tornar pública uma série de fatos aos quais
prometo não impregnar de um tom lamuriento que, por sinal, eu e Gonzaguinha
auto-criticávamos com bastante humor.
Dois ou três motivos fizeram-me escrever este livro-quase-epitáfio, mas vou
ao principal : uma nota maliciosa publicada por um jornal a que me nego citar
aqui o nome (irá para a bibliografia que utilizei) e que me negou direito de
resposta. Conselhos ouvi, outros fui buscar. Aos que ponderaram fazer ouvidos
moucos, porque daqui a pouco ninguém mais se lembraria do fato, argumentei: me
basta nunca esquecer. Aos que me disseram que desse os ombros e jogasse no lixo
as palavras mentirosas, expliquei que devo satisfações a muitos jovens que
balizam um pouco suas vocações pela ideologia que, penso, impregna alguns
trabalhos que faço. Esses jovens freqüentam as oficinas de música aonde vou
beber suas ansiedades, lotam um imenso teatro, como há pouco fizeram em São
Paulo no Memorial da América Latina, quando lá se apresentaram os remanescentes
do "Rosa de Ouro". E porque o assunto envolve ética e responsabilidade,
rejeito o conselho.
Até porque é um assunto que me cobro sempre abordar : a qualidade da
informação, ausente naquela nota infamante, caluniosa, antiética. A qualidade
de informação que não encontro em tantos livros e monografias que aspiram ser
de pesquisa.
Aos fatos.
Capitulo I
Um jornal de circulação restrita ao Rio de Janeiro publicou uma foto da
filha de Clementina de Jesus, Olga, noticiando estar a própria internada e
carecendo de recursos, recursos esses apropriados por mim, seu suposto
Procurador, junto com o acervo pessoal de Mãe Quelé. Antes de tudo, estranhei
a notícia não só pela sua total inveracidade, mas também pelo fato de, há
poucos meses, Olga ter me telefonado agradecendo o valor que havia recebido
pela edição do álbum comemorativo "Clementina, 100 anos", editado sob
patrocínio, mas com distribuição restrita à clientela da patrocinadora, à
imprensa e a pessoas notoriamente ligadas à pesquisa de nossa música popular, e
com todos os seus direitos artísticos, autorais e conexos devidamente quitados.
A empresa responsável pela administração dos recursos captados enviou uma
carta esclarecedora à direção do jornal, que não a publicou. A notícia ganhou
repercussão à boca pequena, mas incômoda. O texto que enviei ao jornal
irresponsável, diante da recusa de publicação, é o que destaco:
"Conforme reza a ética jornalística, que recomenda oferecer aos leitores não
só uma versão de um determinado fato, mas o fato em sua dimensão mais ampla, e
ouvidas obrigatória e democraticamente todas as partes que o envolve, errou o
jornal (omito o nome) ao acolher e tornar públicas as informações caluniosas
estampadas em sua edição de 15 de setembro corrente, que transcrevo: "De acordo
com (omito o nome) amigo da família que ajuda financeiramente os netos da
cantora, o procurador de Olga, Herminio Bello de Carvalho, teria ficado com o
dinheiro das negociações e com todo o acervo e prêmios da cantora". Essas
informações mereceriam de mim pronto reparo, caso tivesse sido procurado pelo
referido jornal. Declaro que nunca fui procurador da Sra. Olga, não detenho nem
nunca detive qualquer peça de um suposto acervo de Clementina de Jesus, nem
jamais recebi qualquer prêmio em seu nome".
Olga faleceu logo após a matéria ter sido publicada, o jornal continuou
mantendo silêncio e tudo poderia ficar por isso mesmo - mas eu não quero
conviver com essa falta de ética.
Capitulo II
Aparentemente me desviando do assunto, lembrei agora de uma carta desaforada
que mandei para José Ramos Tinhorão, que havia feito uma crítica jocosa a um
disco que, cumprindo contrato oferecido pela Odeon, gravei em 1968. Claro que
não exigi reparação, porque estaria agindo que nem censor. Era um desabafo
pessoal, magoado, diante de um crítico de rara inteligência e probidade, mas
que, no exercício de seu ofício - valha-me Deus! - é de uma extrema malvadeza.
E, cá entre nós, ele tinha lá suas razões... A vingança, que hoje qualifico
de mau gosto, foi elaborada com a cumplicidade do Tom Jobim, a quem
endereçava suas críticas mais impiedosas. Entrevistados sobre o crítico,
declaramos que o víamos apenas como uma planta herbácea da família das Aráceas,
a quem irrigávamos com nossa urina. Até hoje José Ramos Tinhorão não perdoa a
saliência, de gravidade menor, reconheçam, que suas críticas demolidoras.
Se tenho por Tinhorão um respeito que sobrevive às reservas que faço a
posições que, por vezes, me parecem dolorosamente radicais ( e hoje me
incorporo às homenagens que o MIS presta ao grande Mestre), o mesmo não se dá
com outros críticos que, com o combustível de uma raivosa aversão pessoal à
minha pessoa, fizeram-me alvo de campanha ridícula que dela, no momento, me
abstenho ocupar.
Porque a questão da ética jornalística é preponderante, volto à questão
Clementina de Jesus, que me devolve à seguinte questão: devo me conformar com o
silêncio imposto por uma mega empresa de comunicações que veiculou matéria
infamante, ou simplesmente encaminhar petição à Justiça exigindo Direito de
Resposta? Há quem insinue que a melhor opção é, comodamente, colocar o rabo
entre as pernas e deixar como está para ver como é que fica. Abrir uma
discussão de tal magnitude por uma notícia que quase ninguém leu? Fora de
cogitação.
Lembro quando fui desligado da Rádio MEC, sem dar ouvidos aos cautelosos que
me recomendavam não bater à porta da Justiça: vivíamos os dias da repressão, e
todo cuidado era pouco. O pretexto (verbal) para minha dispensa fora o excesso
de contigente da casa, mas, na verdade, minhas posições políticas se refletiam
no meu exercício de produtor, causando incômodo à censura que rondava aquela
rádio. Permito-me lembrar que obrigavam-nos à assinatura diária do livro do
ponto, e me constrangia encontrar meu ilustre colega Carlos Drummond de Andrade
submisso ao ato meramente burocrático. Entrei com um processo contra a Rádio
Mec. Foram 25 (vinte e cinco) anos de tramitação e, ao longo desse período,
comi o tal pão que o diabo amassou - e posso afirmar que era bolorento.
Valeria, agora, e aos 66 anos, mover outro processo? É hipótese que sofre
maturação.
Mas façamos um retrocesso aos sombrios anos da repressão, às trevas em que
fomos jogados pelo golpe de 64. Vivíamos a criação da Sombrás: Tom na
Presidência, eu na Vice. Aldir Blanc, Macalé, Vitor Martins, João Bosco, Sueli
Costa e outros colegas haviam sido expulsos da Sicam - o que nos mobilizou a
criar uma entidade sem fins lucrativos, com o fim específico de denunciar as
mazelas e as máfias que dominavam o direito autoral no Brasil. A tropa de
choque era comandada por Mauricio Tapajós, e nos sediamos no Museu de Arte
Moderna, numa sala cedida por Heloisa Lustosa. Tempos duros de ameaças,
pressões - tudo aquilo que já se sabe. Voltarei ao assunto, que envolve Sergio
Ricardo e Chico Buarque. Porque lembrei que, mais ou menos nessa época, Albino
Pinheiro fora nomeado Diretor do Teatro João Caetano, inventando o
Seis-e-meia.
É o momento, também, de aclarar esse episódio: alguns jornais teimam em me
creditar a criação do "Seis-e-meia". A idéia nasceu do coração de Albino que,
circundando as imediações da Praça Tiradentes, percebeu que havia um público
potencial que padecia ali naquelas filas que serpenteavam nos pontos de ônibus,
por vezes sob chuva. Havia um horário ocioso no teatro que assumira, trocou
idéias comigo, convidou-me a partilhar de seu sonho. Apenas formatei
artisticamente o projeto, sugeri-lhe o nome - que ele aceitou. O resto é pura
invenção de quem não conheceu Albino e sua imensa capacidade de criar novos
modelos - como a Banda de Ipanema, por exemplo. Criação coletiva, apure-se.
Um dia, sem mais por quê, desalojaram-nos do Teatro. Combinou-se : eu sairia
do projeto, Albino continuaria, estrategicamente, lutando pela sua permanência.
E lá me vejo eu comprando, politicamente, a briga pelos jornais. O
Seis-e-meia voltou, eu não. Fui fazer o Projeto Pixinguinha. O modelo? O
Seis-e-Meia do Albino. Com todos os créditos, claro.
A TVE é um capítulo que merece estar neste depoimento. Em 1976 a produtora
Liana da Rocha fez um Especial sobre minha vida. Seguiu-se um convite para
produzir musicais naquela emissora. Antes eu fora sondado pela TV Globo, mas
recusara o convite porque estava de partida para a Europa, e iria emendar um
trabalho logo em seguida no Canadá e Estados Unidos. Meu programa de estréia
foi o "Agua viva", cuja produção executiva era de Liana. Levo a escória
divina, escorraçada das emissoras comerciais, para gravar na TVE: de Nelson
Cavaquinho e Cartola a Tia Amélia do Jaboatão; de Rosinha de Valença e Sivuca
ao então nascente Os Carioquinhas (Rafael e Luciana Rabello, Maurício Carrilho,
todos ainda meninos). Foram 13 anos em que produzi e/ou participei de centenas
de programas ao lado de Fernando Lobo e Lúcio Alves, dirigido às vezes por
Carlos Alberto Lofler e na companhia terna, porém não submissa aos coronéis de
então, desse grande Fernando Pamplona. Buscava sempre atuar numa linha
alternativa, ou seja, oposta à das emissoras comerciais. Já no fim da década
dos 80, estive sob forte censura estética na TVE - igual à que sofrera nos anos
da ditadura na Rádio Mec. Meus programas eram transferidos ou cancelados, ou
então podados os elencos que escalava. Havia, sobretudo, um lambe-cu que
chamava de "velharias" os artistas que eu elencava para meus programas: Caymmi,
Elizeth, Moreira da Silva, Aracy de Almeida, Radamés Gnattali. Sem qualquer
pudor, tachavam como de pouco apelo popular artistas como João Bosco, Paulinho
da Viola, Edu Lobo. Fui colocado em disponibilidade tão logo Fernando Collor
assumiu o poder. Por meio de cartas públicas, questionei o Ato imoral, que
pespegava o rótulo de inútil e vagabundo num operário atuante daquela casa.
Collor é cassado, sobe Itamar Franco ao poder. E ele, a quem jamais fui
apresentado, me nomeia para uma comissão que estudaria algo como melhorar a
qualidade educativa dos meios de comunicação. Na mesma lista incluiu o
carreirista que se exercera como meu censor estético mais dedicado. Abdiquei da
indicação, aproveitando para desnudar o impostor. Logo depois ele seria
demitido pelo Itamar da Radiobrás. Hoje, mais do que provavelmente, deve ter
ascendido a um posto hierárquico ainda melhor remunerado, sócio até, quem sabe?
de uma dessas empreitadas espúrias, onde senadores e deputados se locupletam
sob os chafarizes de lágrimas que esguicham dos olhos daqueles que espoliam
desavergonhadamente.
Mas, claro, nunca mais me convidaram para trabalhar na TVE. Foi o preço,
presumo. Poderão também dizer : "Mania de perseguição".
Parodiando o samba famoso, me perguntam "por que brigas tanto assim,
rapaz?", e justifico dizendo que ser omisso diante de safadezas é compartilhar
delas, referendando-as. Há pouco, fiz a Unimed ressarcir-me de um atendimento
de emergência que não me prestou, colocando em risco minha vida. Recusei há uns
dois anos a Medalha de Mérito Cultural que me foi outorgada pelo Governo - tema
que será abordado em capítulo à parte. Se for falar dos muitos percalços
sofridos, e parodiando o belo samba de Monarco, "hoje não vou terminar".
Prometi falar sobre o episódio com Chico e Sergio. Fica pra mais adiante.
Vamos mudar de capítulo?
Capítulo III
Poderia, agora, pegar dois filões : a recusa à Ordem do Mérito Cultural e o
Museu da Imagem e do Som.
Vamos começar pelo primeiro, transcrevendo a carta de recusa à Ordem do
Mérito Cultural que me foi outorgada pelo Ministério da Cultura :
"Rio de Janeiro, 29 de outubro de 1999
Ministro Francisco Weffort,
Entendo que a insígnia da Ordem do Mérito Cultural, a mim outorgada por
indicação de Vossa Excelência, traduza o reconhecimento não ( apenas ) ao meu
trabalho autoral, mas a um conjunto de projetos realizados, em equipe, na
Funarte, Órgão do Ministério da Cultura, no período de 1976 a 1989.
Cabem, entretanto, algumas considerações. Há algum tempo venho defendendo
uma tese de cunho Marioandradiano: a de que a cultura brasileira deveria ser
tratada como matéria de segurança nacional, e o homem, e sua música, tombados
pelo patrimônio como bens ecológicos. Utopia, dizem. As perdas de um
Villa-Lobos, de uma Clementina de Jesus, de um Tom Jobim ou de um Drummond de
Andrade equivalem - esse é meu sentimento - à derrubada de parte de nossa
floresta amazônica, a pássaros dizimados por estilingues predadores.
Com essa tão discutida globalização, vemos que existe um estereótipo
cultural anódino e incolor, pouco oloroso e de palato indefinido, sendo
imposto ao consumidor. É como se uma motosserra desbastasse um baobá, aparando
suas arestas, redefinindo seu tronco à semelhança das árvores menos nobres da
floresta. Busca-se, com a omissão cúmplice do governo, um processo de
coisificação e imbecilização do jovem brasileiro, afastando-o do entendimento
do que seja um bem cultural, em seu sentido mais amplo. À mesa, o estereótipo é
servido com fanfarras. Separam, como se elementos antagônicos fossem, a cultura
da educação. Um processo dicotômico inexplicável. Vão-se, aos poucos,
esquecendo as lições que nos foram ensinadas por Mário de Andrade, Villa-Lobos,
Anisio Teixeira, Roquete Pinto.
A indicação de meu nome para receber a insígnia da Ordem do Mérito Cultural
fez-me, de início, lisonjeado. Seguiu-se, depois, um sentimento de
constrangimento com essa indicação.
Explico: se méritos existem em nosso trabalho, é por essencialmente
traduzirem um profundo respeito à nossa cultura e à sensibilidade do nosso
povo. Nossa luta pelo registro e documentação da memória cultural brasileira
trava-se também na área de formação de novas platéias para as tantas
manifestações que, órfãs da mídia compromissada com o consumo, tentam
sobreviver num regime cultural nada democrático. A música que se ouve na
maioria das rádios e televisões não é aquela que, por falta de espaço, tenta um
escoamento por vias alternativas. Ela não pode ser confundida com os protótipos
industriais que preponderam nas programações comerciais. Esses são produtos
manufaturados pela indústria pesada da música, que atua com a mesma eficiência
e igual perspectiva de outras indústrias igualmente pesadas, como as de
armamentos bélicos, produtos farmacêuticos, cigarros, bebidas, drogas e outros
bens chamados de consumo.
Poucas alternativas são oferecidas não só para o profissional antigo ou
emergente, como também para um público que, sem o poder aquisitivo da classe
média ou das elites privilegiadas, vive à margem dessa política que despreza
uma arte descomprometida com as regras sujas do mercado. Impedida de promover
sua própria aferição por meio de programas subsidiados, como o Projeto
Pixinguinha, a juventude sequer usufrui do ensino da música, banido do
currículo escolar pelos poderes alienantes que passaram a dominar o país.
Para melhor anatomizar o meu constrangimento com a indicação para a insígnia
outorgada por esse Ministério, prefiro ater-me aos projetos Lúcio Rangel e
Almirante, que tive o privilégio de criar na Funarte. Desconhecendo a forma
como se processariam tais reedições, cheguei a louvar e prestigiar o
relançamento das dezenas de discos e livros. Porém, o tempo tratou de
pulverizar meu otimismo, fazendo-me sentir cooptado pelo aval que dei.
por meio do jornal da Amar-Sombrás, entidade de classe que há mais de 20
anos luta pela moralização do sistema autoral brasileiro, expus minha decepção
quanto à indiscutível perda da qualidade editorial daqueles produtos. Do novo
conceito gráfico às informações neles contidas, o resultado final apresentou-se
como um equívoco.
À ficha catalográfica deveria ser apensa uma nota explicativa que designasse
o programa que deu origem às reedições, já que foram eliminadas quaisquer
referências aos projetos Almirante (de discos) e Lúcio Rangel (de monografias)
e à equipe de trabalho responsável pela editoração. Econômica e artisticamente,
teria sido mais produtivo reproduzir o projeto infinitamente superior criado
originalmente pelo Núcleo de Artes Gráficas da Funarte. Por se tratar de um
produto que leva a chancela do Ministério da Cultura, todas essas omissões se
tornam ainda mais graves.
Mais grave ainda se torna a política de preços estabelecida pela Funarte
para a comercialização desses livros e discos. Com o incentivo do Instituto
Cultural Itaú, que patrocinou a reedição dos discos produzidos pelo omitido
Projeto Almirante, parecia-nos óbvio que livros e discos chegassem às lojas não
ao preço do mercado convencional, mas, sim, como produtos subsidiados, tais
como realmente o são. Portanto, ao adquirir na loja do Ministério da Cultura o
CD relativo a Mário de Andrade (omitido o subtítulo original, Mário, trezentos
350) pelo preço de R$16,00 reais, senti-me duplamente lesado como adquirente e
contribuinte.
Seu custo maior, que é o da produção artística (aluguel de estúdios,
pagamento de músicos e arranjos, projeto gráfico etc.) já havia sido absorvido
na primeira etapa do projeto. Seu custo industrial é relativamente pequeno.
Um disco de tal envergadura não se reduz à mera documentação sonora. É
criminoso excluir a contextualização do trabalho, por mim encomendado, na
época, a Carlos Drummond de Andrade, Oneyda Alvarenga, José Bento Faria Ferraz,
Fernando Sabino, Pedro Nava, Carlos Scliar, Guilherme Figueiredo, Francisco
Mignone e Camargo Guarnieri. O novo projeto gráfico não só excluiu os valiosos
textos como também toda a parte iconográfica e os desenhos de Scliar, Cássio
Loredano, Chico Caruso e Nássara. Acrescente-se que o produto original em
apreço, concebido em 1983, foi todo ele conceituado e produzido em linha com a
equipe do Instituto de Estudos Brasileiros da USP.
Ao defender a tese de que a cultura deveria ser tratada como matéria de
segurança nacional, penso traduzir a necessidade cada vez mais premente de
abrasileirar o brasileiro, como advertiu Mário de Andrade, que cultivava a
utopia de tombar o sentimento de uma cidade - como expressou em carta a Rodrigo
de Mello Franco. É para resguardar as nossas culturas, e aqueles que a
produzem ou consomem, que cultivo também a utopia de se tombar a alma e o
sentimento brasileiros, que impregnam os projetos desenvolvidos em equipe, na
Funarte.
Como artista e animador cultural, estou inserido num quadro de exclusão
cujas regras bem conheço. Elegi o caminho de trabalhar com matéria-prima que
não gera o lucro determinado pelo mercado. Não é à toa que discos que produzi
com Clementina de Jesus, Pixinguinha, Cartola, Elizeth Cardoso ou Jacob do
Bandolim estejam fora de catálogo. E todos meus projetos, ainda que submetidos
às leis de incentivo fiscal, guardam um padrão de exemplaridade (cito Celso
Furtado) que não os tornam competitivos dentro do sistema vigente, onde tais
leis privilegiam o valor mercadológico em detrimento da qualidade do produto.
Uma insígnia - e agradeço as intenções que nortearam sua concessão a mim -
não atenua o sentimento de desgosto com o panorama cultural do nosso país.
Atenciosamente,
Herminio Bello de Carvalho"
A carta que me foi elegantemente respondida pelo Ministro Weffort não me fez
voltar atrás na decisão. Embora publicada matéria no jornal da Amar-Sombrás
sobre a atuação nebulosa da Atração Fonográfica, não houve qualquer mobilização
por parte da imprensa para investigar o assunto. Há uns dois meses, a
Presidente da Fundação Cultural Itaú, Milú Vilella, fez baixar em 50% os
preços dos discos do ex Projeto Almirante, duplamente subsidiados na origem e
reedição.
Mesmo levando em conta o período em que o Ministério da Cultura foi
expurgado do organograma do poder Executivo (Collor rebaixou o Ministério ao
nível de Secretaria, como vingança à classe artística que lhe negou apoio na
campanha presidencial), caberia à Funarte recompor seus quadros técnicos e dar
continuidade a projetos que possuíam um teor de exemplaridade que a tornou uma
das entidades culturais mais respeitadas do Brasil.
Um antigo projeto que deixei na velha Funarte, quando dela me despedi em
1989, me fez bater à sua porta dez anos depois, e recusar o convite para
reintegrar-me aos seus quadros. Mas, animado com as Oficinas de Choro que meus
amigos Maurício Carrilho, Luciana Rabello, Celsinho Silva vinham promovendo
na Sala Sidney Miller/Funarte e, posteriormente, na Lapa - me dispus a
reformatar o Projeto Radamés Gnattali que havia criado em 1988. É um projeto
que abrange três programas integrados de musicalização, com ênfase para a
clientela jovem. Convoquei dois excelentes músicos e companheiros queridos
que, na época, sedimentaram o Projeto : Luiz Otávio Braga (também egresso da
Camerata, igual a Mauricio, Luciana e Celsinho) e Roberto Gnattali, sobrinho
de Radamés.
É uma história que nos devolve a outra, testemunhada por Aramis Millarch -
que foi o criador da Associação de Pesquisadores da Música Popular. Estávamos
em Curitiba para homenagear Jacob do Bandolim falecido dez anos antes - em
1969. Roberto Gnattali é hoje diretor do Conservatório que, por sugestão de
Joel do Nascimento, havíamos sugerido ao Jayme Lerner criar. A idéia foi
consagrada em ata que redigi na toalha de papel do restaurante Guilhobel, em
Curitiba, na presença também de Mauricio Carrilho e Yan Guest, firmada por
Jayme Lerner, sob o apadrinhamento de Aramis. Nosso saudoso amigo foi a chama
que, durante algum tempo, iluminou o percurso de criação do Conservatório
Pixinguinha de Música Popular, que seria criado muitos anos depois, numa nova
gestão de Lerner, mas já com Aramis agastado politicamente com seu
afilhado-Governador. Não compareci à inauguração por solidariedade a Aramis -
até porque o nome de Pixinguinha foi expurgado, porque daria uma conotação
excessivamente carioca à Instituição, que abrigaria, inicialmente, a
Associação de Pesquisadores.
Enfim : mais uma briga.
Capitulo IV
Se tanto insisto na qualidade da informação, e se por vezes, por ignorância
ou despreparo, transgredi regras que hoje me são cada vez mais caras em função
do episódio Clementina de Jesus, espero não estar perdendo o fio da meada. Que
a carta dirigida ao meu nobre ex-colega do Conselho de Música Popular do MIS,
por ocasião da festa que seus discípulos e amigos prepararam no Centro Cultural
Hélio Ótica em seu aniversário - 75 anos de absoluta dedicação aos estudos
da música brasileira - aclare um pouco mais essa reflexão que proponho :
"Meu Ary Vasconcellos,
Em 15/02/2001
Hoje me deu uma profunda saudade de Jota Efegê. Costumo visitar Felisbela, e
ficamos horas e horas relembrando a seriedade daquele amigo maravilhoso, que
saía de casa toda manhã para cumprir uma rotina da qual não arredava: pesquisar
um determinado assunto, só o esgotando depois de checar todas as fontes. Posso
até admitir, remotamente, que em algum momento nosso Jota tenha se equivocado
na abordagem de uma determinada matéria. Mas nunca terá sido de má fé, isso
garanto. Afinal, errar é humano.
Com tristeza, constato agora que há uma nova linha, por sinal muito
criativa, que vem sendo adotada nos últimos tempos pelos escrevinhadores que
se dedicam à tarefa de se debruçar sobre a história da nossa música popular,
reinventando-a. Inconformados com os fatos reais, optam, aqueles escreventes,
por adornarem com pitadas de invenção o que não tiveram tempo ou vontade de
aprofundar. Faltando-lhes o talento do nosso Jota, optaram por uma nova
modalidade de pesquisa: a ficcional. É claro que não estou falando do Sergio
Cabral, Lena Frias, Tinhorão, Jairo Severiano, Zuza Homem de MaríliaMarilia
Barbosa, Ruy Castro, João Máximo e alguns outros (poucos).
Pecam esses textos pelo humor chulo ou por tratar episódios os mais banais
num estilo épico de samba auto-exaltação. Se nos divertem em alguns momentos
pelos delírios e desvios cometidos, deixam-nos sempre com a desconfortável
sensação do engôdo: inventam uma nova história, desconstruindo-a e criando
versões fantasiosas. Toda mentira repetida reiteradamente tende a tornar-se
verdade. É como insistir que o "Pelo telefone" foi o primeiro samba gravado.
Sabe-se que não o foi. Por reverência a Donga, essa mentira, tantas vezes
desmentida, volta e meia é repisada. Não deixa de ser uma forma indireta de se
desqualificar aquele autor, cuja importância nunca foi suficientemente
dimensionada. E a mentira, como sabes, é a verdade provisória.
Pensei em te homenagear de uma forma grandiosa, desbastada de graçolas
inúteis ou hipérboles trovejantes. Afinal, são 75 anos - e boa parte deles
debruçada em pesquisas sérias, que resultam em livros substanciosos - cuja
leitura não é registrada em escrevinhações que omitem bibliografias - porque a
história parece brotar das entranhas de determinados autores. Vejo-os
embarcando nas primeiras naus, assestando velas e bússolas, ajudando Pero Vaz
Caminha na redação da célebre carta. Foram acólitos da primeira missa,
parceiros da primeira modinha, inventaram os primeiros acordes, estimularam a
retumbância do Grito à beira do Ipiranga, co-redigiram a Lei Áurea e as
Constituições que regem nossas vidas civis, pensaram edificações, e agora aí
estão desmentindo nossos Jotas e Arys - porque são mais que testemunhas vivas
da história, eles se julgam a própria história.
Se já fiz circular, em circuito fechado, a minha indignação com um livreco
fantasioso no qual fomos, Jacob do Bandolim e eu, alvejados por dardos
venenosos em forma de graçolas inconseqüentes, agora é que não subirei às
tribunas para denunciar lorotagens, petas, mentirolas de um outro livro
muxibento. Acostumei-me a erros primários e mentiras escabrosas que esses
inconseqüentes se permitem repassar como verdades para leitores desavisados -
coisa feia, não?
O livro a que agora me refiro, meu querido Ary, é o "Museu da Imagem e do
Som - Rastros de Memória", que deveria ser subtitulado como "Vestígios de
Memória", tão claudicantes e omissas elas se mostram naquela luxuosa edição.
Ricardo Cravo Albin, na sua exuberante modéstia, promove também uma espécie de
auto-coroação no citado livro. O nobre memorialista se esquece, como
pesquisador que se proclama ser, de contar a verdadeira história daquela
instituição, que a conhecemos bem. Perdeu a oportunidade de nos fazer
revisitar o delírio de Carlos Lacerda em construir o projeto idealizado por
Mauricio Quadrio, a quem entregaria depois a direção da Casa - que por pouco
não se chamou Museu da Imagem e da Luz ("de son et lumiere"). Poderia, ainda,
listar as administrações que sucederam a do Mauricio, historiando-as. Surgiriam
episódios políticos de relevância, como a dissolução dos Conselhos, a criação
dos prêmios Golfinho de Ouro e Estácio de Sá, a gravação dos históricos
depoimentos - idéia proposta por você ao Ricardo que, inteligentemente, a
adotou. Conheceríamos as queixas lavradas por Henrique Foreis, o Almirante.
Reler, há pouco, uma de suas cartas, me fez desnudar uma das faces que o
livro, de alto calibre ficcional, não revela.
Seu legendário autor (entenda-se esse legendário como profícuo autor de
livros com fantasiosas, tonitruantes e gongóricas legendas) expulsa
personagens, episódios e datas de seu último livro com raro desembaraço.
Quase nos faz acreditar ter sido ele o idealizador e construtor daquele Museu,
de cuja história agora se apropria para adulterá-la. De sua exuberante
modéstia nascerá em breve o Dicionário Albin de Música Popular e também,
conforme anunciam as colunas sociais que freqüenta, um Instituto Cravo Albin de
Pesquisa domiciliar-virtual (ou coisa que o valha) aberto ao público, num
gesto de rara magnificência. Temo que em breve o MIS possa vir a chamar-se
Cravo Albin, já que se exibe como uma espécie de Presidente Vitalício.
Ocultando um dos braços sob o dólmã cheio de alamares, Cravo Albin sonha com
seu particular Waterloo. Não se ouse desafiar tais Napoleões: guardam sempre um
Ministro sob os braços, te oferecem um verbete em troca de uma reverência. .
Não me constrange mais que Ricardo Cravo Albin insista em se investir como
produtor de um disco que não produziu - uma das inverdades que seu livro de
legendas repisa. Antes e depois do disco de Elizeth (1968) acompanhada por
Jacob do Bandolim, Zimbo Trio e o Época de Ouro, produzi pelo menos uma dezena
de discos para ela e não sei quantas outras dezenas para outros artistas. Se o
seu delírio o faz julgar-se produtor daquele disco, idealizador do MIS, gost
writer da carta de Caminha ou estilista exclusivo de Dona Maria I, não serei eu
a colocá-lo numa camisa de forças. Ricardo tem fantasias absurdas, já inventou
uma lista das 14 melhores músicas brasileiras de todos os tempos, daqui a pouco
irá promover uma enquete para saber quais as 17 maiores mezzo-sopranos da
região centro oeste do Piauí.
Vim te dar um abraço e acabei tocando em assuntos desagradáveis. Mas tudo
isso porque sei que você também se preocupa em não fornecer informações
duvidosas para essa geração que, fiando-se em nossa credibilidade, delas irá se
servir, repassando-as como sendo de boa fonte. Repito: toda mentira repetida
reiteradamente tende a tornar-se verdade. Se não tratarmos a nossa história com
respeito e a informação com qualidade, como essa nova geração irá entendê-la?
Respeito é bom e dele se gosta. Acho que nosso Mário de Andrade ensinou isso a
todos nós abundantemente.
Esta carta, sem ar de fuxico, vai pra guardares num escaninho amoroso. É
minha forma de dizer: ainda bem que não fazes essas coisas. É oportunidade
também para te desejar um belo aniversário, cercado de muitos amigos-discípulos
que sempre fomos e seremos. Pena que o nosso Jota Efegê não esteja mais por
aqui para cantar os nossos parabéns.
Saiba-se, além de amado, muito respeitado por todos nós.
Discípulo, HBC
Que se registre, paralelamente, a grande confusão que cerca a criação do
Museu da Imagem e do Som, da Fundação Vieira Fazenda, de suas Diretorias e
Presidências. O livro de Ricardo, que pretendia contar a saga da criação do
MIS, é omisso no que se refere a informações transcedentais. Não explica o
contexto político em que se deu a criação do Museu por Carlos Lacerda, e a
importância de Mauricio Quadrios nesse processo. Talvez o discurso do
Governador, transcrito aqui, possa elucidar um pouco
essa matéria, ainda mais confusa após a publicação do citado livro. A falta de
menção a Ricardo ao se inaugurar o Museu, talvez explique a ausência de sua
importância naquele momento histórico. Méritos teve, e muitos, ao fazer do MIS a
sua obsessão, dele se tornando o maior promotor. Isso talvez explique (sem
justificar) a criação do Instituto a que, modestamente, deu seu nome. Ou,
talvez, já tenha fundamentado suas razões ao justificar em entrevista à "Veja"
de 11/04/2001, que órgãos públicos sejam "péssimos guardiões de acervos dito
culturais". Se o Instituto Cravo Albin realmente vier a existir, de que forma
coexistirá com o Museu da Imagem e do Som, onde, aliás, é remunerado como
Assessor? E o Dicionário Cravo Albin, financiado pela Biblioteca Nacional,
resultará na extinção da Enciclopédia da Música Brasileira, editada desde 1977?
Aos pesquisadores, a palavra.
Nessa carta ao Ary, faço referência a uma outra que enviei, em forma de
circular, a alguns poucos amigos. Andávamos, eu e Elena Bittencourt, injuriados
com o capítulo de um livro que abordara, com equívocos e graçolas
desnecessárias, não só o temperamento de Jacob do Bandolim (a quem o autor não
conheceu pessoalmente), criticando a mim por ter letrado choros de autores
já falecidos - como é o caso de Jacob, Chiquinha Gonzaga e Nazareth. E
questionava se "teria um letrista o direito de escolher uma melodia de autor já
falecido e dela usufuir no aspecto do direito autoral".
Depois do episódio da filha de Clementina, andei revirando meus arquivos,
vasculhando o computador - e encontrando espinafrações de todos os feitios,
porque nunca foi meu hábito calar diante de injúrias. Transcrevo apenas o
início dessa circular : " Credibilidade. É o que se espera de um livro que se
propõe ser uma obra de referência e de cunho paradidático. É pelo menos o que
se alardeia na contracapa da edição do livro "Choro do Quintal ao Municipal"
(Editora 34,1998) ".
Da minha decepção, dou agora conta : citar a bibliografia consultada é uma
regra nesse tipo de publicação e, também, uma questão de ética - até porque
meus livros, nota-se, foram consultados. Ignorar que o primeiro registro do
violão de Nelson Cavaquinho foi feito em 1965 no Lp "Elizeth sobe o morro", é
menos grave do que omitir a admiração que Jacob nutria pelo "Pedacinhos do
céu", de Waldyr Azevedo ou a generosidade em indicar Luperce Miranda, com quem
tinha diferenças pessoais ( mas de quem executava as obras ), ao Deo Rian.
Desqualificá-lo como ser humano com base em fontes duvidosas, é prematuramente
se desqualificar para o ofício de pesquisador. É quase cometer o erro de
Gilberto Gil, que o classificou de policial - ele que foi apenas um Escrivão
Juramentado, admitido em concurso. Jacob tinha um temperamento difícil, talvez
porque seu nível de exigência musical não o fazia tolerar os medíocres. Era
extremamente cioso com a qualidade da informação que passava em seu ofício de
músico e pesquisador. Tenho cartas e documentos que provam essa probidade e
também um rigor que por vezes me parecia excessivo - e hoje não mais. Radamés
Gnattali, que me deu a honra de ser seu parceiro (a letra é dedicada a Zezé
Gonzaga, sua cantora preferida ) - tinha por Jacob uma admiração irrestrita,
expressa, aliás, não só na Suite Retratos, mas em todos os movimentos em que se
reverenciava a memória de Jacob - como no Tributo que lhe prestamos através da
Camerata Carioca.
No caso do autor em pauta, deve-se dizer que é um operário da música. Autor
de um método para seu instrumento, produtor de discos importantes, idealizador
de alguns conjuntos musicais - mas não da Camerata Carioca, que, aliás, chegou
a integrar, por indicação de Mauricio Carrilho, e substituindo Luciana Rabello.
Ao operoso músico e agora pesquisador devo, até, a revelação de ter
encontrado na Rádio Mec um progama que fiz em 56/58 com D. Nair de Teffé, a
célebre cartunista Rian, filha do Barão de Teffé e víuva do Marechal Hermes da
Fonseca. Ela, então Primeira-Dama do país, desafiou as regras dos salões
palacianos, tocando em seu violão o "Corta-Jaca" de Chiquinha Gonzaga -
depoimento que deve constar daquela fita, à qual nunca mais tive acesso.
Acho que um pesquisador deve ter a consciência de que cada informação
equivocada ou leviana em seu livro irá empobrecer o conhecimento de seu
leitor, que repassará a mentira como se verdade fosse. E a mentira, segundo
aforismo de Salomão que me foi ensinado por Aracy de Almeida, é a verdade
provisória.
Ontem, durante uma palestra, ouvi de um participante uma grave afirmação :
citando um autor que agora não me vem à cabeça, dizia que diante de uma
biografia desinteressante, optava sempre pela lenda.
Acontece que a história do Brasil, ensinada nas escolas, é também cheia de
lendas - uma forma encontrada também pela ditadura para retocar e camuflar
verdades incômodas. Uma informação de qualidade não pode priorizar a lenda em
desfavor do fato verdadeiro. Deve-se, até, contar o fato e tambem a lenda. Um
livro que pretenda servir de referência e que tenha um cunho paradidático, tem
que se desbastar de graçolas ou invencionices - sinônimos de lendas. Sabe-se de
pesquisadores que usam ghost writers, que reinventam a história, sem dar-se
conta da irresponsabilidade desse ato.
Daí a minha constante auto-penitência e quase arrependimento por alguns
livros onde, sem querer, induzi a pensarem que fossem de pesquisa. Sou um
desengavetador, repito, um mero desengavetador de histórias que as conto sem
aumentar um ponto. Se por vezes me trai a memória, que me perdoem. Má fé,
jamais a usei.
Um operário da música, como é o autor, não merece a espinafração pública
que, com rabo entre as pernas, levei um dia para casa quando, em 1966, foi
editado o libreto da ópera-popular "João-Amor e Maria", de parceria com
Mauricio Tapajós e Cacaso, avacalhado em termos chulos por um hoje famoso
novelista, que na época se exercitava como crítico literário. Recomendou-me,
quase que literalmente, que eu enfiasse meu livro no rabo e fosse buscar outra
ocupação. Se tivesse sido obediente a tal conselho, teria, quem sabe? livrado
a poesia e a música de mais um mau letrador de chorinhos...
Por oportuno, transcrevo um texto que traduz meu pensamento em relação ao
assunto. Ele me foi encomendado por uma jornalista que não o publicou, mas o
faço agora :
"Há pouco tempo, alguns rábulas que ditam as normas e procedimentos da nossa
música popular, promulgaram um AI-5 proibindo que se letrassem os choros que,
segundo eles, não podiam ganhar versos. "Choro é pra ser tocado", decretaram,
e fim de papo. Fizeram ainda pior os sábios : quase me culparam de ser o
deflagrador da moda.
Esqueceram-se, os doutos, de afixar essa proibição na lápide de Vinicius
de Moraes, que letrou o "Odeon" de Nazareth. Esse interdito proibitório se
parece com o vazio desses institutos culturais domiciliares que andam agora
inventando, reduto de rega-bofes marqueteiros - pois a palavra cultura,
valha-me Deus, virou gazua, virou manivela para fazer jorrar grana para essas
causas inúteis.
Tudo isso agora me vem à cabeça porque ando convivendo demais com alguns
legados de Jacob do Bandolim que, como se sabe, era avesso a trambiques
culturais e, sobretudo, a falsos pesquisadores. Elena, sua filha dileta, com
quem passo uma tarde inteira vasculhando o diário escrito por Jacob, lembra a
verdadeira ojeriza que ele dedicava a esses esvoaçantes atravessadores de
(falsas) informações. Chegou a afixar, em seu estúdio de trabalho, uma placa
advertente : "Pesquisa é no Instituto Pasteur", que recebeu um adendo meu que o
fez rir às chamadas bandeiras despregadas : "Vá pesquisar a sua mãe". Durante
algum tempo, a placa adornou meu escritório.
Peguei outro atalho, me desguiei do assunto? Claro que não : aqui estou eu
com uma letra que o Jacob fez para o "Ingênuo" de Pixinguinha. Isso mesmo : o
próprio Jacob, a maior autoridade e o maior estudioso do choro brasileiro, fez
o mesmo que dezenas de poetas fizeram antes dele : letrar choros alheios -
porque não se pode engessar um gênero musical, impedindo que a invenção esbarre
em conceitos duvidosos, sem qualquer base científica. Lembraria aos
desmemoriados de plantão que Garoto já era falecido, quando Vinicius e Chico
Buaque letraram o "Gente humilde".
Para quem considerou um sacrilégio o poeta Vinicius letrar o "Lamentos",
de Pixinguinha ( e a pedido do próprio ), lembraria que ninguém de bom senso
jamais lavrou um só protesto quando Braguinha colocou versos no quase então
desconhecido choro "Carinhoso", que ganhou popularidade a partir da belíssima
gravação de Orlando Silva que tirou aquela música de um abissal silêncio que
durava 20 anos. Alguém ousa lembrar alguma queixa de Pixinguinha a respeito?
Acabo de fazer versos para o "Benzinho", que vai juntar-se ao "Noites
cariocas"e "Doce de coco"- completando assim uma trilogia Jacobeana que, na
pior das hipóteses, vai fazer um agrado aos corações de Adilia e Elena, esposa
e filha de meu querido Jacob, diletas amigas. Desde o dia em que Pixinguinha
me convidou para letrar o "Fala baixinho", deixei de dar ouvidos aos censores
travestidos de críticos.
Ou será que, ao censurar os choros letrados, não estarão querendo esses
doutos destronar Ademilde Fonseca, a "Rainha do chorinho", exemplo mais vivo da
riqueza e flexibilidade daquele gênero, a quem a palavra empresta a riqueza
também de nossa lingüa? Que se faça um plebiscito junto ao povo, que há mais de
meio século enche os pulmões para cantar o Carinhoso. ".
Capitulo V
Generais me assustam, Ministros não. A um já mandei pessoalmente à merda, e
a outro adverti dentro de um elevador em Brasília, quando imperialmente passou
à frente de Elizeth Cardoso, desconhecendo as mínimas regras de educação e
cavalheirismo - que o obrigaria a salamaleques à Grande Dama, mandando às favas
as regras cerimoniais que dão precedências a altas otoridades em prédios
oficiais.
Minto : também Ministros me assustam às vezes. Lembro de um, Armando
Falcão, que ocupava o Ministério da Justiça em plena ditadura. Arrogante,
prepotente, dono das verdades. Não se dava ao luxo de abrir a boca : talvez
exercesse uma auto-censura, ele que se especializara em calar a boca dos
outros. Por um desses acasos, sua família era ligada à de Sergio Ricardo,
bravo companheiro de lutas e um dos fundadores da nossa Instituição. E, enfim,
cá estou eu a contar a história prometida, e lá vou eu, comandado pelo bravo
guerrilheiro, para um encontro com o Ministro, a quem Sergio relataria as
ameaças que rondavam a Sombrás e seus dirigentes. Lembro da escolta que
precedeu a entrada do Ministro : walkie-talkies, senhas, códigos - e eis que
chega a figura. Um encontro quase tão patético quanto o que tivemos ( Chico
Buarque, Sergio Ricardo e eu) com Nei Braga, figura doce, oposta à do outro,
mas político até a medula. Constatamos ali o quanto o poder emascula o caráter
dos políticos profissionais e desbasta os mínimos principios que deveriam reger
o mandato que cumprem.
A cooptação se dá através de muitos modos, inclusive títulos e medalhas. Meu
medo de recebê-las talvez seja uma defesa absolutamente infantil. Tantas já as
recebi, que criei defesas que me permitem distinguir quando há reconhecimento
ao mérito ou quando disfarça intenções cooptativas. Lembro até da alegria de
Tom Jobim, no gabinete de José Aparecido de Oliveira, mostrando a mim e Oscar
Niemayer (tenho a foto), orgulhoso, a comenda recebida.
Mesmo após a recusa à Ordem do Mérito Cultural que me outorgou, faça-se
justiça ao Ministro Weffort, coerente talvez ao seu passado petista : ante
minha recusa de ir a Brasília, convidou-me para um encontro em território
neutro. No caso específico, seria na casa de José Maria Guimarães Monteiro,
Mangueirense que eu conhecera por intermédio de Sergio Cabral. Não havia como
recusar o convite se, afinal, ao dono do território já oferecera, em outra
circunstância, a minha própria casa para sediar cerimônia inesquecível : o
convite a Chico Buarque para ser enredo da Estação Primeira.
Não foi um encontro difícil. Até porque, para amenizá-lo, levei minha
parceira e afilhada Joyce, essa grande intérprete-compositora que freqüentou as
hostes da Sombrás. Sempre é assim : os amigos são as escoras, as pilastras
naturais que solicitamos quando uma situação melindrosa ameaça descambar para o
contrangimento, que precisará um dia ser objeto de testemunho.
Sugestões que Weffort me pediu foram parcialmente acatadas ( desejava
homenagear a Mangueira - e solicitei que estendesse essa homenagem à
Velha-Guarda da Portela e à nascente Velha-Guarda do Imperio). Idéias sobre
nossos projetos culturais foram amplamente discutidas e fundamentadas, e
ganharam parceria. Leio que aceitou outras sugestões : homenagear Clementina
de Jesus e Paulo da Portela, nos centenários que completariam neste ano.
Aproveitei para, nesse encontro, abordar o projeto de um Simpósio sobre a
Música Brasileira, idéia inicialmente apresentada à Presidente do Museu da
Imagem e do Som em 25/fev/1999 e posteriormente à Amar/Sombrás. Simpósio em
forma de Encontro - o 6O - da Associação de Pesquisadores da MPB, que
realizei, dois deles, em minha gestão na DMP da Funarte. Recomendei
participantes : Sergio Cabral, Ary Vasconcellos, Hermanno Viana, João Máximo,
Telê Porto Ancona Lopes, Miécio Caffé, Nirez, José Ramos Tinhorão, Jairo
Severiano, Antonio Nobrega, Ruy Castro, Pedro Alexandre Sanchez, Mauricio
Quadrio, Zuza Homem de Mello, Ricardo Cravo Albin. Sinto-me à vontade para
aceitar não só o convite de Marilia Trindade Barbosa para participar do
encontro, como também, só agora, a Comenda que voltou o Ministério da Cultura
a me outorgar. Recebo-a em nome das equipes que consolidaram os projetos
culturais que idealizei, aos parceiros dos tantos sambas que fiz ao longo da
minha vida, aos companheiros dessa luta que travo desde 1951, quando me
iniciei como repórter, até os difíceis momentos vividos na velha Sombrás, sob o
tacão da Ditadura, ou nas emissoras de rádio e televisão onde atuei como
produtor de discos e programas culturais, durante décadas. Se puder ir
recebê-la, será em nome das clementinas que povoam minha vida.
Capitulo VI
Há pouco tempo, talvez por ter abordado o assunto em entrevistas que dei a
diversos canais de televisão, uma pergunta tem surgido com mais intensidade nos
últimos dias: o que seria meu arquivo, de quantas peças se constitui meu
acervo, quantos livros inéditos tenho engavetados, etc.
Isso me obrigou a uma reflexão, ao receber de volta quase 20 caricaturas de
Pixinguinha, que acumulei ao longo de minha antiga devoção a um de meus
parceiros mais queridos. Tenho caixas e mais caixas que acumulam toda espécie
de documentação: projetos de discos, centenas de roteiros de programas de
rádio, televisão, sinopses de espetáculos, uma infinidade de textos escritos a
partir de 1951, quando iniciei minha carreira como foca numa revista de rádio.
Caixas e mais caixas com programas de concertos e peças teatrais assistidas
aqui e no exterior. Talvez a parte mais importante do acervo sejam as fitas de
rolo, k7 e DAT de todos os gêneros, fixando encontros em minha casa com
Cartola, Pixinga, Nelson Cavaquinho, Elizeth, Clementina, Sarah Vaughan - além
de vídeos, milhares de fotos e discos, livros, lembranças, cartas de Drummond,
Nássara, Isaurinha Garcia, Maria Luisa Anido, Nellie Lutcher, Jacob do
Bandolim. Álbuns encadernados, com recortes sobre atividades que exerço há meio
século. A chamada parte literária (poemas inéditos, um romance, letras de
música, artigos inéditos ou publicados em revistas de literatura) - está
sofrendo um processo de ordenação por meio do trabalho do Prof. Heron Coelho,
objetivando a publicação de novos livros.
Porém, confesso com tristeza que meu maior acervo está em mãos alheias.
Melhor dizendo: o que resta deles, nos arquivos da rádio MEC e da TVE, em
forma de programas que produzi, roteirizei e apresentei - e que gostaria de
vê-los num suporte novo, que permitisse a essa garotada, que me procura ávida
de informações, conhecer a arte, por exemplo, de Radamés Gnattali com seu
quinteto. São centenas de registros que fiz com toda sorte de personalidades, a
partir de 1976, quando comecei a fazer televisão. Há alguns meses luto para
que esse material seja revertido em DVD, e acessado ao público - antes que se
deteriore nos arquivos da TVE.
É a preocupação que tenho com os Arquivos de Jacob do Bandolim, há quase
trinta anos sob a guarda do Museu da Imagem e do Som. O Desprojeto que
transcrevo a seguir, mostra o grau de nossa preocupação, minha e de Elena
Bittencourt, sua filha :
JACOB SEM BANDOLIM - (DES) PROJETO
CONCEITO
Tombar patrimonialmente o sentimento de uma cidade era uma utopia alimentada
por Mário de Andrade, porque nem todo patrimônio público é constituído apenas
de bens físicos, materiais. O que se deseja, agora, é promover o
des-tombamento do legado material de Jacob do Bandolim, tornando-o um
patrimônio de real utilidade O que se aspira é revelar à coletividade todo o
sentimento que envolvia sua suprema arte.
HISTÓRICO
Jacob do Bandolim foi muito além do instrumentista que se provou genial.
Deixou, como autor, um número infinito de obras, tornando-se, paralelamente,
um pesquisador emérito da música brasileira e do choro em particular. Legitimou
o gênero através de um permanente trabalho de divulgação de um repertório que
coletou com extrema dedicação ao longo de sua breve vida. Ao morrer, em 13 de
agosto de 1969, aos 53 anos, Jacob Pick Bittencourt deixou a marca de sua
forte personalidade em partituras, escritos, discos e fitas que foram entregues
à guarda do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro. Sua grande preocupação
era com a memória do choro e, sobretudo, com a obra de compositores como
Pixinguinha, Anacleto de Medeiros, Ernesto Nazareth, João Pernambuco e outros
gênios que ele perpetuou numa discografia impecável, com cerca de 300
fonogramas comerciais, além de 122 fitas entregues ao Museu da Imagem e do Som.
Quem participou de seus célebres saraus, tornou-se não apenas um ouvinte
privilegiado das noites mais cariocas que esta cidade já conheceu, mas um
discípulo sem carteira de um Mestre que não sonegava lições, que fazia questão
de repassá-las nas inúmeras atividades que exercia - inclusive como radialista.
Proclamava não ser professor e, por isso, não ter formado alunos. Ignorava
que, ao morrer, deixaria não apenas uma escola, mas uma universidade aberta a
todos que um dia iriam estudar o gênero a que se dedicou com rara e profícua
eficiência. Sua casa em Jacarepaguá era uma permanente oficina musical, onde
reunia a nata dos chorões cariocas, proporcionando a eles o convívio com
músicos de outros Estados, de quem fazia questão de registrar as obras para
posterior divulgação. Canhoto da Paraíba, Rossini Pereira, Zé do Carmo, Dona
Ceça e outros autores-instrumentistas eram recepcionados e hospedados em sua
casa, num gesto de ampla generosidade por quase todos reconhecido. Recebia
também artistas internacionais do porte de Maria Luisa Anido, Sergei Dorenski e
Oscar Caceres em saraus memoráveis. E essa trajetória não pode ser ignorada, e
sua herança tem que estar ao alcance daqueles a quem a legou: aqueles que o
viram tocar, ou aqueles que, agora, continuam atentos às lições que deixou em
sua discografia ou nas fitas-aulas que, depositadas há mais de 30 anos no Museu
da Imagem e do Som, dão mostra de fadiga e apontam para uma não impossível
destruição. Quando do desaparecimento de Jacob, o Estado de São Paulo foi o
primeiro a interessar-se pelo precioso legado. Entretanto, o pesquisador Ary
Vasconcellos intercedeu junto à viúva Adylia Bittencourt, para que esse
patrimônio não fosse deslocado do Rio de Janeiro, berço do choro, que tinha em
Jacob do Bandolim uma de suas grandes instituições. Se não podemos reconstituir
a sonoridade extraída por Chopin de seu piano e as nuances de sua
interpretação, a arte de Jacob é contemporânea, o que nos permite contemplá-la
através da audição de seus discos e das fitas em que a registrou. Mas boa parte
dessa obra continua enclausurada, sem ter sido submetida às novas tecnologias
que poderiam reconstituí-las, resguardando-as e promovendo sua devolução aos
estudiosos da arte do grande intérprete e autor. São bens materiais, mas
perecíveis.
JUSTIFICATIVA
Este (des)projeto tem, por objetivo, a devolução desse material, um bem
patrimonial de utilidade pública, àqueles que desejam conhecer não só a obra do
compositor, mas todo o trabalho de pesquisa que ele desenvolveu e repousa,
hoje, naquele precioso arquivo. Sua biografia, escrita pela Prof. Ermelinda
Paz (Funarte,1997) destaca a importância desse acervo, formado a partir de uma
permanente atividade de pesquisador, que corria paralela à sua trajetória de
instrumentista e compositor. Jacob era um servidor em tempo integral da nossa
música, um operário em seu instrumento, que a todos atendia com prestimosidade,
plantando as raízes que hoje brotam graças, em grande parte, ao trabalho que
realizou silenciosamente, sem alardes. Seu arquivo abriga milhares de
partituras da literatura do choro e de todas as suas variantes históricas.
Ao estimular a preservação do gênero através de um Concurso que em boa hora
institucionaliza, espera-se que o MIS venha obter recursos para também
preservar a história do choro, boa parte dela provisionada nos arquivos sonoros
de Jacob do Bandolim.
Herminio Bello de Carvalho
OBJETIVO
O (des) Projeto Jacob sem Bandolim visa ganhar voz junto a todos aqueles que
trabalham com registro e documentação, tendo como meta principal a divulgação
daquele acervo através de sua multiplicação em suportes os mais variados,
permitindo que se faça um trabalho de divulgação das múltiplas e diversificadas
atividades de Jacob do Bandolim, como autor, instrumentista, pesquisador e
também animador cultural. Assim, se ampliavam os horizontes da informação da
qual se fez um servidor em tempo integral, como já se fundamentou no Histórico
e na Justificativa deste (des) Projeto. Sua característica básica é seu
aspecto informal, buscando tão somente a adesão de pesquisadores e estudiosos
da música brasileira para uma causa de interesse público: acessar, como o fazia
em vida seu patrono, o acervo confinado há mais de 30 anos no Museu da Imagem
e do Som. Torná-lo não uma ficcional referência de arquivologia, desprovida de
utilidade : dinamizá-lo, promovendo sua digitalização, integrando-o a outros
movimentos como as Oficinas de Choro que hoje enriquecem, com periodicidade, a
vida artística do Rio de Janeiro. Perpetuá-la, como vem fazendo a Acari
Records, que promoveu o registro de mais de 300 títulos de choro, gravados numa
série de 15 CDs, que serão disponibilizados para os estudantes de música. Ou
integrá-lo, em futuro, às atividades do Projeto Escola Brasileira de Música BR
e seus três programas básicos : a Escola Portátil de Música Brasileira BR, as
Oficinas Volantes de Música BR e as Apostilas Sonoras BR(série de Cds com uma
discografia básica, acompanhada de bibliografia) - todos dirigidos aos
estudantes de música brasileira.
METAS
Constituem-se como metas de (des) Projeto, a serem cumpridas até
13/agosto/2001, data em que se completam 32 (trinta e dois anos) do
desaparecimento de Jacob do Bandolim :
Reivindicar que se reinventarie todo o acervo do Arquivo Jacob do
Bandolim, reintegrando, ao mesmo tempo, todas as peças dele desmembradas
(partituras, fotos, documentos, epistolografia), promovendo sua conseqüente
informatização e acesso público àquele acervo.
Digitalizar todas as partituras, para consulta pública.
Recuperar todo o acervo de fitas gravadas por Jacob do Bandolim,
revertendo-as para um suporte tecnológico de maior durabilidade, promovendo-se
pleno acesso desse material de pesquisa ao público.
Inventariar e registrar toda a obra de Jacob do Bandolim, gravada
comercialmente, revertendo-a para o formato Cd, em forma de coleção.
Promover o mesmo inventário junto a arquivos pessoais, que possuam
registros sonoros informais daquele músico, registrando-os em suportes
modernos, que seriam depois oferecidos a instituições que trabalhem com a
memória nacional (Museus da Imagem e do Som, bibliotecas, escolas de músico,
arquivos públicos, etc).
Promover uma busca de imagens de Jacob do Bandolim em acervos das
televisões brasileiras, resgatando-as em suportes a que se dará acesso público.
É de fundamental importância conhecer sua forma de execução, sua postura, o uso
de sua palheta, seu dedilhado e digitação - informações que se restringem
apenas àqueles que tiveram o privilégio de ouvi-lo tocar pessoalmente. (Obs:
existe apenas registro de 7 segundos de Jacob do bandolim na televisão
brasileira. Sem som).
Criar um Website (sítio virtual) Jacob do Bandolim, que tem como meta
ampliar as informações hoje sitiadas no Museu da Imagem e do Som, tornando-as
acessíveis aos usuários do sistema, ou acoplá-lo a um sítio virtual já
existente (inclusive seu vasto acervo de partituras que, dessa forma, seriam
disponibilizadas ao público).
Dirigir proposta à Rádio Mec para que se crie um exclusivo programa
dedicado a Jacob do Bandolim, no qual se dê divulgação de todo esse trabalho,
que será gravado em suporte que permita sua consulta através de instituições
culturais que por ele se interessem.
DA COMISSÃO
Serão convidados a fazer parte dessa comissão as seguintes personalidades :
01) O conjunto Época de Ouro, através dos músicos que o integram, mantenedores
naturais da memória de seu criador, Jacob do Bandolim; 02) Deo Rian, discípulo
informal de Jacob do Bandolim, e permanente divulgador de sua obra. 03)
Pesquisador Ary Vasconcellos, autor de diversos livros sobre a música
brasileira, idealizador do Conselho de Música Popular do Museu da Imagem e do
Som; 04) Maurício Carrilho, maestro, compositor, que vem realizando um
verdadeiro trabalho arqueológico sobre o choro, através do levantamento e
registro de mais de 200 composições inéditas no selo Acari, trabalho de
pesquisa feito de parceria com Luciana Rabello (cavaquinho), Pedro Amorim
(bandolinista), Celso Silva (pandeirista) e Álvaro Carrilho (flautista), que
integram também esta Comissão, representando as Oficinas de Choro que recontam,
de forma dinâmica, a sua história; 05) Sergio Prata, músico, pesquisador; 06)
Luiz Otávio Braga, músico, professor, ex-integrante da Camerata Carioca,
pedagogo que integra o Projeto de Música Brasileira BR; 07) Helton Altman,
produtor musical, idealizador da Rua do Choro e do Clube do Choro de São Paulo,
autor de iniciativas como o projeto "Chorando Alto", que teve a participação
dos maiores nomes da música instrumental brasileira e internacional. 08) Jairo
Severiano, pesquisador, biógrafo de Braguinha e autor, com Zuza Homem de Melo,
do livro "Canção do tempo". 09) Prof. Neusa Fernandes, museóloga, escritora,
ex-Diretora da Femurj e do Museu da Imagem e do Som; 10)Afonso Machado,
bandolinista, integrante do conjunto Galo Preto, pesquisador da obra de Jacob
do Bandolim. 11) Roberto Gnattali, Diretor do Conservatório de Música de
Curitiba, que faz parte do Projeto Música Brasileira BR. 12)Francisco Faria,
pesquisador do choro e, em especial, da obra de Jacob do Bandolim,
representando seu pai, Benedito Cesar de Faria. 13) Pedro Aragão, pesquisador.
14) Rodrigo Ferrari e Egeu Laus, editores da "Revista do Choro". 15) Reco do
Bandolim, de Brasilia 16) Elena Bittencourt, filha de Jacob do Bandolim. "
Capitulo VII
POSFÁCIO
Tenho a mania de recolher matérias sobre educação e cultura, e acompanho de
perto as Oficinas musicais que meus ex companheiros da Camerata promovem aos
sábados, ali na Lapa, ao lado da Sala Cecilia Meirelles. De longe, acompanho
também Leandro Braga e sua escola em Santa Teresa. Aplaudo meu velho e querido
baixista Itiberê (seu baixo pontua a maravilhosa atuação de Isaurinha Garcia no
disco "Nua e crua", que produzi em 1976). Sua orquestra, constituída só de
jovens, evoca o trabalho que, há uma dezena de anos, foi igualmente realizado
pelo Roberto Gnattali. Emocionado, visito uma escola particular em Xerém, que
não é mantida por nenhuma Ong ou qualquer Instituto Cultural. É financiada por
Zeca Pagodinho, um dos melhores seres humanos que já conheci em toda a minha
vida.
Ongs, Associações diversas, Secretarias Estaduais ou anônimos professores
que atendem de graça alunos carentes - tudo isso vejo inserido num quadro que
mereceria uma reflexão mais ampla por parte de todos aqueles que irão
participar do 6O Encontro de Pesquisadores que será promovido pelo MIS neste
outubro.
Agora mesmo concentro minhas energias num espetáculo que pretende reeditar a
linha ideológica do "Rosa de Ouro". Aqui em minha casa ensaio Cristina Buarque,
Mariana, Pedrinho, Pedro Paulo, Luciane - sob a batuta de Mestre Paulão 7
cordas, e a cada encontro saio revitalizado. A cada e-mail que abro, é uma
mensagem de carinho que me estimula a trilhar esse caminho que há 36 anos ousei
levar para um palco, mostrando a arte abissal de Clementina de Jesus ao lado de
Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Anescarzinho do Salgueiro, Nelson Sargento,
Jair do Cavaquinho - todos reverentes ao retorno de Aracy Cortes aos palcos.
Quando os levo ao meu escritório, explico que por ali passaram Pixinguinha,
Elizeth, Mãe Clementina, Aracy de Almeida, Caymi, Gonzagão, Herivelto, Ellis,
Sarah Vaughan, Tia Amélia do Jaboatão, Morengueira da Silva, Chico Buarque,
Mauricio Tapajós, Gonzaguinha, Aldir Blanc e dezenas ( ou centenas : ali moro
há 30 anos) de outros amigos que entenderam que nenhum trabalho resiste ao
tempo sem um mínimo de conteúdo ideológico, sem um mínimo de disciplina e um
transbordante suor.
É em homenagem a essa juventude que chamam de alienada (sem uma reflexão
mais atenta sobre os fatores alienantes) que também fiz a montagem desse livro,
trabalho de dois ou três dias, graças a essa maravilhosa invenção que é o
computador, e as memórias que ele preserva.
A qualidade da informação, que tantas vezes dela me descuidei sem qualquer
má fé, e pela qual me penitencio, é uma exigência que se faz em respeito ao
futuro dessas gerações que evém chegando, com possibilidade de mudar o mundo.
Que possamos legar-lhes bons exemplos. Como, por exemplo, a publicação do
segundo volume de 'Maxixe, a dança excomungada", cujos originais foram
entregues à Guarda da Biblioteca Nacional por Felisbela, mulher de Jota Efegê.
Essa é uma proposta que faço aos participantes deste encontro. homenagem mais
do que merecida a um de nossos grandes Mestres, e também à juventude que
necessita beber dos conhecimentos que nos legou.
Legou-me também um tesouro essa Rainha Ginga que é Clementina de Jesus. E
é à sua lembrança que dedico este depoimento.
Outubro de 2001
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
Zélia Gattai afirma que costuma recorrer apenas à sua memória para escrever
seus livros, sem valer-se de apontamentos ou arquivo. Memória fraca, tenho que
consultar não só o que escrevi, como também, o que sobre mim gastaram tempo e
palavras escrevendo. Também, sempre às mos, tenho os Dicionários do Aurélio (e
agora o do Houaiss) e o de Música Brasileira do meu velho e querido amigo
Mário de Andrade, com quem bebi, ficcionalmente, ao lado de Aracy de Almeida e
Ismael Silva, na minha Taberna da Glória. Valeu-me bem mais a memória do
computador, que guarda quase tudo que, implacável, recolhe em seu disco
rígido. Tendo-os citado, inútil seria dizer que não reconsultei os seguintes
livros :
- "Noel Rosa, uma biografia (João Máximo e Carlos Didier, Editora Linha
Gráfica)
- "Choro do quintal ao Municipal"(Henrique Cazes, Editora 34)
- "Museu da imagem e do som, rastros de memória"(Ricardo Cravo Albin, Sextante
Artes)
- Tese de Claudia Mesquita sobre o Museu da Imagem e do Som, inédita;
- e o jornal Extra.
HERMINIO BELLO DE CARVALHO
Agradecimentos :
Prof. Heron Yamaguchi Coelho (ordenador dos textos)
Prof. Leonardo Castilho